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Intestino, o ‘segundo cérebro’: o que a Medicina descobriu sobre essa conexão

O intestino é chamado de “segundo cérebro” porque tem uma extensa rede de neurônios e mantém comunicação constante com o sistema nervoso central. Essa troca acontece principalmente pelo eixo intestino-cérebro, envolvendo o sistema nervoso entérico, o nervo vago, hormônios, células do sistema imunológico e a microbiota intestinal.

Para quem estuda Medicina, entender essa relação ajuda a perceber como diferentes sistemas do organismo funcionam de maneira integrada. No curso da Unic, conhecimentos sobre fisiologia, sistema digestório, microbiologia e sistema nervoso fazem parte da formação necessária para compreender mecanismos como esse com uma visão ampla do paciente.

Neste post, entenda por que o intestino ganhou o apelido de “segundo cérebro” e o que a Medicina já descobriu sobre essa conexão!

Por que o intestino é chamado de “segundo cérebro”?

O intestino ganhou o apelido de “segundo cérebro” porque abriga o sistema nervoso entérico, uma extensa rede de neurônios e células gliais capaz de perceber o que acontece no trato gastrointestinal e coordenar funções essenciais da digestão. 

Entretanto, a expressão é uma metáfora: esse sistema não pensa nem desempenha as mesmas funções cognitivas do cérebro. A dimensão dessa rede ajuda a entender de onde vem a comparação. 

Um estudo publicado em 2022 na Neurogastroenterology & Motility realizou uma contagem abrangente dos neurônios entéricos em humanos, camundongos e porquinhos-da-índia. Nos seres humanos, os pesquisadores estimaram cerca de 168 milhões de neurônios no sistema nervoso entérico e concluíram que essa quantidade é comparável à encontrada na medula espinhal.

Essas células estão organizadas principalmente em redes distribuídas pela parede do trato gastrointestinal. 

Por meio de circuitos locais, o sistema nervoso entérico participa do controle da motilidade intestinal, das secreções digestivas e do fluxo sanguíneo local, entre outras funções necessárias para que a digestão aconteça de maneira coordenada.

Isso significa que parte do funcionamento digestivo pode ser organizada por circuitos presentes no próprio trato gastrointestinal. Ainda assim, o intestino não trabalha isolado. 

Existe um fluxo de informações nos dois sentidos entre o sistema nervoso entérico e o sistema nervoso central, formando uma das bases do chamado eixo intestino-cérebro. Portanto, chamar o intestino de “segundo cérebro” é uma forma de destacar a complexidade de seu sistema nervoso, e não de afirmar que existem dois cérebros no organismo. 

Para a Medicina, justamente essa integração é o ponto mais importante: compreender o trato gastrointestinal exige ir além da digestão e observar como sinais nervosos, mecanismos imunológicos, hormônios e outros sistemas participam do funcionamento do corpo como um todo.

Como funciona a comunicação entre o intestino e o cérebro?

O intestino e o cérebro mantêm uma comunicação bidirecional, conhecida como eixo intestino-cérebro. 

Isso significa que informações sobre nutrientes, distensão do trato gastrointestinal e outros estímulos podem chegar ao sistema nervoso central, enquanto o cérebro também envia comandos capazes de modificar funções digestivas. 

Essa troca envolve vias nervosas, células especializadas e sinais químicos. Na prática, não existe um único “fio” ligando os dois órgãos. O sistema nervoso entérico processa informações localmente e interage com o sistema nervoso autônomo. 

Ao mesmo tempo, determinadas células do epitélio gastrointestinal reconhecem o conteúdo presente no tubo digestivo e participam da transmissão desses estímulos.

O papel do nervo vago no eixo intestino-cérebro

O nervo vago é uma das principais vias nervosas envolvidas nessa conversa. Suas fibras sensoriais levam ao sistema nervoso central informações relacionadas ao estado do trato gastrointestinal, como a presença de nutrientes e a distensão provocada pela chegada dos alimentos.

Um experimento publicado na revista Cell identificou diferentes grupos de neurônios sensoriais vagais capazes de responder a estímulos específicos no aparelho digestivo, incluindo o estiramento dos órgãos e sinais relacionados aos nutrientes. 

A descoberta ajudou a detalhar como o organismo transforma acontecimentos dentro do trato gastrointestinal em informações que podem chegar ao cérebro. Posteriormente, pesquisadores demonstraram um mecanismo ainda mais rápido. 

Em um estudo publicado na Science, experimentos em camundongos mostraram que determinadas células enteroendócrinas conseguem estabelecer conexões sinápticas com neurônios vagais e transmitir sinais relacionados ao conteúdo intestinal em questão de milissegundos.

Isso modifica uma visão simplificada segundo a qual os sinais produzidos no sistema digestório dependeriam apenas da liberação de hormônios na circulação. 

Algumas informações também podem seguir por circuitos neurais rápidos, aproximando ainda mais o funcionamento gastrointestinal de outros sistemas sensoriais estudados pela Medicina.

Como o cérebro também influencia o funcionamento do intestino

A comunicação, porém, ocorre nos dois sentidos. O sistema nervoso central envia sinais ao trato gastrointestinal por meio do sistema nervoso autônomo, interferindo em funções relacionadas à motilidade, às secreções e à atividade de circuitos do sistema nervoso entérico.

Essa via ajuda a compreender, por exemplo, por que situações de estresse podem ser acompanhadas por alterações gastrointestinais. Não significa que todo desconforto digestivo tenha origem emocional, mas mostra que respostas geradas no sistema nervoso central podem repercutir no funcionamento do aparelho digestório.

Além disso, a conexão não se limita aos neurônios. Pesquisas sobre o eixo intestino-cérebro investigam como hormônios, mecanismos imunológicos e substâncias relacionadas à microbiota intestinal participam dessa rede. 

Estudos experimentais também demonstram que a integridade do nervo vago pode ser relevante para determinados efeitos associados a mudanças da microbiota sobre o sistema nervoso, embora boa parte desses mecanismos ainda esteja sendo investigada e os resultados de modelos animais não possam ser automaticamente transferidos para seres humanos.

É justamente essa combinação que torna o eixo intestino-cérebro tão interessante para a Medicina. Em vez de analisar o aparelho digestório como um sistema isolado, o estudante precisa compreender como Fisiologia, Neurociência, sistema endócrino e mecanismos imunológicos se relacionam para manter o equilíbrio do organismo.

Qual é o papel da microbiota intestinal nessa conexão?

A microbiota intestinal participa do eixo intestino-cérebro ao produzir e modificar substâncias que interagem com vias nervosas, imunológicas e metabólicas do organismo. 

Por isso, as comunidades de microrganismos que habitam o trato gastrointestinal passaram a ocupar um espaço importante nas pesquisas sobre a comunicação entre o intestino e o sistema nervoso central.

Essa relação, porém, não significa que determinadas bactérias controlem diretamente pensamentos ou emoções. 

A microbiota faz parte de uma rede muito mais complexa, na qual também entram alimentação, metabolismo, sistema imunológico, genética, medicamentos e diversos fatores ambientais. 

Os próprios estudos em humanos reforçam a necessidade de interpretar essas associações com cautela.

Como os microrganismos intestinais podem enviar sinais ao organismo

Um dos mecanismos investigados envolve os metabólitos, moléculas produzidas ou modificadas durante a atividade dos microrganismos. Entre elas estão os ácidos graxos de cadeia curta, como acetato, propionato e butirato, gerados principalmente a partir da fermentação de componentes da alimentação.

Um estudo experimental publicado na Science Translational Medicine mostrou que camundongos criados sem microbiota apresentavam maior permeabilidade da barreira hematoencefálica. 

Quando esses animais receberam microbiota intestinal ou bactérias produtoras de ácidos graxos de cadeia curta, houve alterações associadas ao fortalecimento dessa barreira

Como o trabalho foi realizado principalmente em modelos animais, os resultados ajudam a investigar mecanismos biológicos, mas não devem ser interpretados como prova de que o mesmo efeito ocorre de maneira idêntica em seres humanos.

A interação também alcança moléculas envolvidas na sinalização do próprio trato gastrointestinal. 

Em uma pesquisa publicada na Cell, cientistas observaram que bactérias formadoras de esporos presentes na microbiota de camundongos e humanos estimularam a biossíntese de serotonina por células enteroendócrinas do cólon em modelos experimentais. 

A alteração repercutiu, entre outros aspectos, na motilidade gastrointestinal dos animais. Esse resultado é importante porque ajuda a mostrar que os microrganismos não são apenas habitantes passivos do intestino. 

Eles podem interferir no ambiente químico do trato gastrointestinal e, dessa maneira, participar de processos fisiológicos que integram diferentes sistemas.

O que os estudos em humanos já descobriram sobre microbiota e cérebro

Em seres humanos, os pesquisadores também encontraram associações entre características da microbiota e aspectos relacionados à saúde mental, embora isso ainda não permita afirmar que uma composição bacteriana específica seja responsável por determinada condição.

Um estudo publicado na Nature Microbiology analisou 1.054 participantes do Flemish Gut Flora Project e validou os resultados em conjuntos independentes que reuniam outros 1.070 indivíduos

Bactérias produtoras de butirato, como Faecalibacterium e Coprococcus, apareceram associadas a melhores indicadores de qualidade de vida, enquanto alguns grupos bacterianos apresentaram diferenças entre participantes com e sem depressão. 

Os próprios autores destacaram que a comunicação microbiota-intestino-cérebro ainda havia sido estudada predominantemente em modelos animais e que fatores de confusão precisam ser considerados nas análises humanas.

Outra pesquisa, publicada na Nature Communications, avaliou amostras de 1.054 participantes do Rotterdam Study e replicou a análise em 1.539 pessoas da coorte HELIUS. 

Os pesquisadores encontraram 12 gêneros bacterianos cujas associações com sintomas depressivos apareceram na mesma direção nas duas populações analisadas. Ainda assim, o trabalho identificou relações estatísticas, e não uma explicação simples de causa e efeito entre determinada bactéria e a depressão.

É justamente essa diferença entre associação, mecanismo biológico e causalidade que torna o estudo da microbiota intestinal relevante para a formação médica. 

O que a Medicina já descobriu sobre a influência do intestino no organismo?

A Medicina já sabe que o intestino exerce funções que vão muito além da digestão e da absorção de nutrientes

A mucosa intestinal, as células do sistema imunológico, o sistema nervoso entérico e os microrganismos que vivem no trato gastrointestinal participam de processos capazes de repercutir em diferentes partes do organismo.

Isso não significa que alterações intestinais expliquem, sozinhas, doenças neurológicas, metabólicas ou imunológicas. 

Ao contrário, as pesquisas mostram uma rede de relações complexas, na qual alimentação, genética, ambiente, medicamentos, imunidade e microbiota interagem. Por isso, um dos avanços da Medicina foi justamente abandonar explicações isoladas e investigar esses mecanismos de forma integrada.

O intestino participa do funcionamento do sistema imunológico

O intestino mantém contato constante com alimentos, microrganismos e diferentes moléculas vindas do ambiente externo. Ao mesmo tempo, precisa permitir a absorção de nutrientes sem desencadear respostas imunológicas inadequadas contra tudo o que atravessa o trato digestório. 

Essa combinação transforma a região em um importante ponto de interação entre barreira intestinal, microbiota e sistema imune. 

Um estudo experimental publicado na revista Science demonstrou que ácidos graxos de cadeia curta produzidos pela atividade da microbiota influenciaram a quantidade e a função de células T reguladoras no cólon de camundongos. 

Essas células participam do controle das respostas imunológicas e da manutenção da tolerância no organismo. A descoberta ajudou a demonstrar um mecanismo pelo qual produtos do metabolismo bacteriano podem interagir diretamente com componentes do sistema imune. 

Entretanto, como parte importante desses experimentos foi realizada em animais, os resultados precisam ser interpretados dentro desse contexto antes de serem extrapolados para a prática clínica em humanos. Essa relação já despertou interesse inclusive na Oncologia. 

Em um estudo publicado na Science com 112 pacientes com melanoma, pesquisadores encontraram diferenças na diversidade e na composição do microbioma intestinal entre pessoas que responderam e aquelas que não responderam à imunoterapia anti-PD-1.

O resultado não significa que determinada bactéria garanta o sucesso de um tratamento. Ele mostra, porém, por que a composição do ambiente intestinal passou a ser investigada como uma das possíveis variáveis associadas à resposta imunológica e terapêutica.

Relação entre intestino, alimentação e metabolismo

Outra frente importante envolve o metabolismo. A alimentação fornece substratos tanto para as células humanas quanto para os microrganismos intestinais. A partir deles, diferentes compostos são formados e podem interagir com vias relacionadas à glicose, aos lipídios, à inflamação e ao aproveitamento energético.

Uma das análises mais amplas sobre o assunto foi publicada na Nature e reuniu dados de mais de 34 mil participantes dos Estados Unidos e do Reino Unido. Os pesquisadores compararam microbioma, hábitos alimentares, medidas antropométricas e marcadores de saúde cardiometabólica, incluindo índice de massa corporal, triglicerídeos, glicemia e hemoglobina glicada.

Foram encontradas espécies microbianas consistentemente associadas a perfis mais ou menos favoráveis de alimentação e saúde cardiometabólica. Os resultados também foram testados em mais de 7.800 amostras adicionais, reforçando a existência de associações reproduzíveis entre determinados padrões do microbioma e indicadores do organismo.

Há, contudo, uma ressalva fundamental: os próprios pesquisadores afirmam que esse tipo de análise não permite concluir a causalidade. Em outras palavras, encontrar uma bactéria associada a determinado marcador metabólico não prova que ela seja responsável por produzi-lo. Dieta, estilo de vida e diversas características individuais também interferem nessa relação.

Como o curso de Medicina da Unic ajuda a compreender a relação entre intestino e cérebro?

O curso de Medicina da Unic ajuda o estudante a compreender a relação entre intestino e cérebro ao trabalhar diferentes sistemas do organismo de forma integrada. A graduação tem duração de seis anos e carga horária total de 7.500 horas.

Essa abordagem pode ser percebida já no primeiro ano. De acordo com a grade curricular de Medicina da Unic, o primeiro semestre inclui Organização Morfofuncional do Corpo Humano e Digestão e Absorção. 

No período seguinte, aparecem componentes como Metabolismo, Distúrbios Nutricionais e Estilo de Vida, Mecanismos de Agressão e Defesa I e Percepção, Consciência e Emoção.

Esses conhecimentos ajudam a construir a base necessária para entender por que o intestino não pode ser analisado apenas como um órgão responsável pela digestão. 

Para estudar o eixo intestino-cérebro, por exemplo, é preciso relacionar a fisiologia gastrointestinal ao funcionamento do sistema nervoso, às respostas imunológicas e aos processos metabólicos, justamente como as pesquisas apresentadas ao longo deste conteúdo demonstram.

Como esse conhecimento evolui ao longo da graduação

À medida que a formação avança, a grade incorpora situações mais próximas dos problemas encontrados na prática médica. No segundo ano, aparecem conteúdos como Febre, Inflamação e Infecção e alterações relacionadas ao sistema nervoso. 

Já no quinto semestre, o estudante encontra o componente Dispepsia, Emese e Diarreia, enquanto o sexto inclui Transtornos Mentais e Drogadição. No sétimo semestre, Metabolismo, Distúrbios Nutricionais e Estilo de Vida II retoma aspectos metabólicos em uma etapa mais avançada do curso.

A organização curricular mostra por que temas como a conexão entre cérebro e intestino exigem raciocínio interdisciplinar. Um sintoma gastrointestinal, por exemplo, precisa ser compreendido considerando sua fisiologia, os mecanismos envolvidos e o contexto clínico do paciente, em vez de ser associado automaticamente a uma única causa.

Além dos componentes voltados aos sistemas e às manifestações clínicas, a formação em Medicina da Unic inclui ao longo dos quatro primeiros anos Práticas Interdisciplinares de Interação Ensino, Serviços e Comunidade, Habilidades, Profissionalismo e Humanidades e Ciência, Extensão e Transformação da Saúde da Comunidade. 

Nos dois anos finais, a grade prevê o internato, etapa em que a formação avança para a prática supervisionada. 

Assim, estudar por que o intestino é chamado de “segundo cérebro” também exemplifica uma habilidade central para quem se prepara para exercer a Medicina: conectar conhecimentos de diferentes áreas, interpretar evidências científicas e compreender o organismo como um conjunto de sistemas que interagem entre si. 

Na Unic, essa construção ocorre progressivamente ao longo da graduação, aproximando os fundamentos biológicos das situações que farão parte da atuação médica.

Como você viu, o intestino recebeu o apelido de “segundo cérebro” porque abriga uma complexa rede nervosa e mantém comunicação contínua com o sistema nervoso central. 

Hoje, a Medicina já consegue explicar parte dessa interação por meio do sistema nervoso entérico, do nervo vago, da microbiota intestinal e de mecanismos imunológicos, metabólicos e hormonais.

Ao mesmo tempo, as pesquisas mostram que ainda há muito a descobrir. Associações entre microbiota, emoções, metabolismo e determinadas doenças não significam necessariamente uma relação direta de causa e efeito. 

Por isso, compreender esse tema também exige saber interpretar evidências científicas e integrar diferentes áreas do conhecimento.

Para quem se interessa por descobertas como essas e quer aprofundar o estudo do corpo humano, o próximo passo pode ser conhecer o curso de Medicina da Unic. Veja como funciona a graduação, conheça a proposta de formação e descubra como começar sua trajetória na Medicina!

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